quinta-feira, 11 de março de 2021

aqui e aí...

segui o fio de Ariadne por toda a vida.

de algum modo sobrevivi por esse tipo de paciência: esperar pelo porvir. é como um acalmar de ânimos, como se os problemas todos se moldassem para outras coisas pelo simples motivo de ir-se dormir. 

"tudo bem, tudo bem, vai aliviar, amanhã você vai sentir diferente, vai descobrir caminhos, apenas durma e acorde".

sonho enquanto durmo, segurando esse fio de Ariadne e mergulhando naquele rio do Heráclito.

fui a longos passeios, de sonho em sonho, sem me prender a algum, de modo que fossem protegidos como um bem-querer em lugares-fantasia. raramente quis trazer sonhos ao mundo real. o que teria sido deles?

sonhos empoeirados e varridos.

gestar sonhos e não precisar que nasçam. devolvê-los ao universo em forma de luz e passado-que-não-aconteceu: assim tinha sido.

mas...

em um restinho de sonhos bem pequeninos, foi diferente. neles, sempre existia uma pessoa. 

que nunca teve rosto, tamanho, cor, voz, identidade.

mas em seu rosto eu poderia ver que eu também tenho um rosto;

em seu tamanho caberia meu tamanho;

em sua cor, eu poderia ver muitas cores;

em sua voz, eu me sossegaria e me esqueceria e dormiria.

sua identidade seria revelada como que por acaso, em minuciosas coisas, mas sem medo e sem recuos. e eu também não teria medo, pois minha identidade também seria recebida como uma igual.

seria alguém que sempre que eu pensasse, eu poderia sorrir. alguém inteligente, mas que não precisasse de muito para valorizar o nosso bem. seria alguém que me inspirasse como pessoa, e me incentivasse para qualquer lado que eu escolhesse.

mas caso eu estivesse pequena, nunca iria me machucar ainda mais.

alguém que iria acreditar e esperar por mim nesse processo de existir aos pedaços, e iria confiar, e me deixaria ser, em paz, 

sem que eu me sentisse mal nem por um segundo.

queria dizer, portanto,

que eu encontrei um rosto, uma voz, um nome.


como não amar alguém que eu já acordo querendo dar bom dia?

como não amar a pessoa que me deixou provar o gosto de uma nuvem de sonho?

é alguém que eu quero muito fazer feliz, e no dia que eu não conseguir fazer feliz, eu quero fazer sorrir. e caso eu não consiga fazer ele sorrir, eu quero fazer com que se sinta protegido, acolhido e amado.

eu o amo por quem ele é, por quem ele é em mim.

seremos sempre como mãos seguindo o fio, corpos que mergulham no rio.

talvez não caiba em uma vida. então vou deixando derramar aqui e aí todos esses afetos. deixarei registrado nas pessoas ao redor, deixarei desenhado em nossas coisas, nossas músicas, nossos lugares, comidas, paisagens. deixarei marcado nos cheiros e em nossas futuras memórias.

a nós dois,

desejo todas as memórias felizes que aconteceram e que ainda estão por-vir.