quarta-feira, 30 de setembro de 2020

uma declaração de amor (para quem não amei)

poderíamos ter ficado juntos, éramos confortáveis. mas ao mesmo tempo faltava muita coisa, porque tinham nos arrancado muita coisa. estávamos assim, aos pedaços, quebrados. era quase uma lei da física que a gente coubesse um no outro, pelo tanto de espaço vazio.

você era um amigo, compreendia várias coisas. quando brigávamos eu até me entristecia, mas isso nem chegava a arranhar meu coração. a gente ria das mesmas coisas, reclamava das mesmas coisas, gostava dos mesmos filmes. ciúme existia. mas era um ciúme de medo de perder o acesso fácil e sem burocracia, de perder a pessoa-de-confiança irrestrita e o jeito mais simples de viver afetos. com você eu era desencanada, tosca e largada, egoísta, dramática, cética e cínica.  

talvez o amor seja uma casa enorme, vinda de um projeto que nunca fica pronto e acabado o suficiente. um dia enfim desistimos de esperar para considerar que tudo está em seu lugar, e apenas habitamos, aplicando reparos quando dá, fazendo reformas e morando dentro, tudo ao mesmo tempo. amar parece um gesto de coragem, de confiar nos alicerces. no entanto, agora eu sei, eu não amava você. 

você sabe, a gente tentou demais. não desistimos assim tão fácil. a gente dava voltas e lá estávamos tentando de novo. mas no fundo, no fundo, a gente também nunca desistiu de outra coisa: viver algo verdadeiro e profundo. muitas vezes nos impacientávamos com nós mesmos, porque esse sentimento verdadeiro e profundo não estava ali.

das pessoas que eu não amei, você foi uma das que eu amei conhecer. obrigada por deixar minha vida mais fácil, por não ser uma mágoa. obrigada por ser aquela parte do passado que eu nunca tenho problemas em revisitar, por todas as boas lembranças. obrigada sobretudo porque eu aprendi um pouco com você a nunca me conformar com o não-amor. 


desejo que nós encontremos uma casa boa para viver. que ela seja a paz e o abrigo, e o acolhimento e a verdade com que tantas vezes sonhávamos. 

que seja uma casa de reformas e adaptações, mas que nem por um minuto precisemos sair dela. 

 

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

bodas de problema

eu amadureci. e se você me amar menos por causa disso, não saberei o que fazer. eu amadureci por querer você. de tanto eu tocar em seus cabelos todos os dias e sentir neles um cheiro de problema. problema-bom. já ouviu falar em problema-bom? é uma coisa assim, que me ocupa os dias, às vezes até me irrita, mas no fim das contas quem eu seria se não fosse assim? ai de mim se não fosse assim. 

fiz pra você um poeminha anos atrás. mas eu nunca te entreguei, porque acho que ele ficaria menos bonito. o meu sentimento entregue sempre parece meio bobo, como a força das palavras quando são lidas de qualquer maneira. e se bem te conheço, você iria ler de qualquer maneira. assim... sem pausa, vírgulas, sem a entonação e o sentimentalismo que eu derramei. mesmo que eu te recitasse, não iria adiantar, você se distrai com facilidade. 

mas que posso fazer? se em você eu tenho a minha melhor graça, a minha falha mais fundamental, o meu mais nobre erro? você tem loucuras assim, contradições assim, e acha que o tudo é sempre suspeito. mas dia desses eu amadureci. e se você me quer menos por causa disso, é melhor ir sonhando menos. é melhor ir querendo menos ser feliz. 

porque você nunca estará ao lado de alguém que seja exatamente igual ao dia que você conheceu. as coisas mudam, eu mudei. mas o meu amor só vai mudando de frasco, de cor de água. estamos envelhecendo juntos. eu sei, os cheiros dos outros você acha muito fortes, porque não tem costume. o meu é o único que te faz lembrar das coisas necessárias na vida, mas às vezes faz ferir suas narinas. não sei se você percebe, mas eu amadureci. na madeira, no cimento, na cadeira da sala. abrigamos um quê de familiar, inerente e indivisível: de melhores reminiscências, de uma história toda preenchida da essência que construímos.

eu diria que seu cheiro de problema-bom parece longe de acabar. mas a verdade é que eu gosto disso. quero que ele dure por todo o sempre que me resta.

in memorian

 eu descobri que você foi embora e eu não sei como fazer pra te pedir: fique.

de repente, assim de repente, não dá mais tempo. e eu fico aqui tentando entender o que é que eu faço com o que não tem volta. quando uma rua termina, outra começa. quando as nuvens fecham o céu, eu sei que o sol está lá atrás. mas dessa vez eu sei que é diferente. eu sei que agora não vai existir depois e nada que eu diga, mesmo que eu corra até você, e nada que eu mude, vai mudar algo. você entrou em uma caixinha de vidro e se tornou imexível, nas memórias, nos sentimentos, no calor e no frio que só uma saudade sabe dar.

eu fico aqui desesperada pensando: eu te amei direito? eu te fiz bem? me perdoe esse egoísmo assim sem mais nem menos, é que você iluminou muito a minha vida e eu só queria me certificar que eu pude dar algo também. mas eu sei que não se trata de mim, se trata de você.

certo, você viveu, e agora não vive. esteve aqui, deu algumas voltas ao redor do sol, conheceu pessoas, deixou um legado afetivo gigante. você fez muita coisa, mas agora você parou. e eu me sinto arrasada porque na minha cabeça, na cabeça de todos nós, não estava na hora de você parar. não estava na hora de você desaparecer sem que a gente te visse sorrir ou tocar uma música, ou falar qualquer coisa que só podia ser você mesmo pra falar. aqui tudo está doendo.

mas e agora? o que é que eu faço se nem ninguém, nem você, sabe que a hora de parar deveria ser muito depois? o que eu faço com a perplexidade e a impotência? pessoas como você vão sempre e profundamente falar ao meu coração: por favor, viva bem. viva todos os afetos que você sentir. traga suas verdades à existência. se entregue a essa vida rápida, e não tenha medo demais.

obrigada pelas memórias. obrigada por ser luz em minha vida. eu quero viver bem enquanto eu puder, porque nessa vida eu encontrei você.

p.s.: mas, por favor, aonde você estiver, me ajude. peça ao mundo que tenha paciência comigo. e que tenha a dignidade de entender que a dor também sabe ser só dor. sem ensinamentos.

 

 #rafa #tio #bart

  

na linha do horizonte tem um fundo cinza
pra lá dessa linha eu me lanço, e vou
não aceito quando dizem que o fim é cinza
se eu vejo cinza como um início em cor
quando tudo finda, dizem, virou cinza
equívoco, pois cinza cura, poesia eu sou
o traje cinza lembra fidalguia
quarta-feira cinza é dia de louvor
vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
vamos festejar o cinza com amor
gota de orvalho prateada é cinza
massa encefálica é cinza, amor
a purificação também se faz com cinza
fênix renasceu das cinzas com honor
só quero dengo quando o dia é cinza
leio poesia e cantarolo o sol
dedilho a viola e sonho colorido
e vejo no amante que o cinza desnudou
vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
vamos festejar o cinza com amor.
(Mateus Aleluia)

terça-feira, 22 de setembro de 2020

janelas abertas

quando ninguém te vê, ou quando você é só mais um no meio de tanta gente, a andar por uma rua movimentada, o que te faz continuar sendo quem você é?

se nesse momento ninguém está interessado no que você tem a dizer, se ninguém presta atenção em suas roupas ou em seu passado, o que te faz, então, permanecer tentando ser melhor a cada manhã?

se no silêncio do seu quarto ou no silêncio de você mesmo, você ainda respira, e ainda seu coração bate, e você ainda ama, e ainda faz e de repente deixa de fazer, por que, então, precisa de tanto reconhecimento, de tanta luta, apenas para que o outro saiba aquilo que já existe? 

será que só existe se o outro souber?

se você permanece você, ainda que não seja notado, que força é essa que te faz morrer por um instante, só porque a ventania de um pensamento fez abrir suas janelas? ele vem em guerra, para te lembrar que há o momento do riso e das lágrimas, barulho e calmaria. 
mas ele também vem em paz, para te mostrar um horizonte de sensações em que apenas Somos, 
apesar de.
e
por causa de.


"aprenda a confiar no que está acontecendo.
se há silêncio, deixa-o aumentar, algo surgirá.
se há tempestade, deixa-a rugir, ela se acalmará."

                                                               Lao Tsé




sexta-feira, 18 de setembro de 2020

vontade de te aprender

não me conte tudo...mas me conte alguma coisa.

você até comenta que talvez chova hoje, que viu um acidente no trânsito, que os preços subiram.
você me diz todas essas coisas só porque não consegue me dizer coisa alguma.
e agora eu estou com saudade de quem você era antes, da época em que passava relatório e aguardava minha reação.

mas um dia eu comecei a não ter reação. interrompia suas palavras, te ouvia com metade de mim, e a outra metade era distraída.
te olhava e não te escutava. te deixava falar só para ter o direito de falar depois. te deixava reclamar só porque eu saberia reclamar mais e melhor.
recebia suas emoções mas achava todas elas meio exageradas, meio a troco de nada.
então eu te dizia: deixa esse assunto pra lá. e aí... você me deixou pra lá. foi mudando, aprendendo a não ter vontade de compartilhar. parou de acreditar em minhas respostas porque todas elas eram muito apressadas. burras.

aconteceu que um dia enfim eu notei. que você nunca mais tinha me falado da pessoa que você gostava, nem da saudade que sentia do ensino médio. nunca mais tinha me enviado uma música que te fez balançar. isso foi justo? foi justo.

eu não posso te voltar atrás. eu sei, reconheço que tá tudo certo, e que a vida nos empurrou para um distanciamento social, emocional, temporal. parece que nada mais bate, que nem temos mais nada a ver. tem horas que eu me pergunto: essa coisa das pessoas que "se gostam mas se afastam" é preguiça? é descaso? talvez aqui e ali seja isso, mas não acredito que seja assim pra todo mundo. de todo modo, eu não quero ter preguiça de você. não precisa me contar tudo, nunca será preciso. mas me dá uma pista, um sinal, uma ideia que me faça sentir um pedaço do seu mundo, do que tá acontecendo aí. quero a chance de prestar atenção às suas expressões faciais enquanto se empolga, ou o quanto você gesticula quando tem raiva. quero contar quantos xingamentos cabem em uma frase de indignação. me deixe lutar por uma cadeira nas suas narrativas, mesmo que você não tenha muita fé em minha escuta. 

eu sei que na família, entre amantes, entre amigos, sempre chega esse dia em que silenciamos. porque temos medo do que vamos dizer, temos medo de quem vai ouvir. a depender do dia, queremos cuidado, atenção, bom humor, reflexão, conselhos, um abraço, uma bronca, um apoio. é difícil acertar qual o dia certo para cada uma dessas coisas. mas eu sei que pelo jeito que você olha pro chão, esse é o dia em que você não merece uma lição de moral. pelo jeito como você chora, esse é o dia em que devíamos apenas ver um filme e comer pipoca. pelo jeito como você cruza os braços, esse é o dia para que eu entenda que o que você me diz é mentira, mas não foi mentira para você. pelo jeito como você me olha, talvez seja o dia em que eu te jogue uma praga.
eu quero decodificar todos esses jeitos e compreender suas angústias. quero te deixar em paz quando nada puder ser dito. eu quero para sempre essa vontade de te aprender. de saber de você.