sexta-feira, 25 de setembro de 2020

in memorian

 eu descobri que você foi embora e eu não sei como fazer pra te pedir: fique.

de repente, assim de repente, não dá mais tempo. e eu fico aqui tentando entender o que é que eu faço com o que não tem volta. quando uma rua termina, outra começa. quando as nuvens fecham o céu, eu sei que o sol está lá atrás. mas dessa vez eu sei que é diferente. eu sei que agora não vai existir depois e nada que eu diga, mesmo que eu corra até você, e nada que eu mude, vai mudar algo. você entrou em uma caixinha de vidro e se tornou imexível, nas memórias, nos sentimentos, no calor e no frio que só uma saudade sabe dar.

eu fico aqui desesperada pensando: eu te amei direito? eu te fiz bem? me perdoe esse egoísmo assim sem mais nem menos, é que você iluminou muito a minha vida e eu só queria me certificar que eu pude dar algo também. mas eu sei que não se trata de mim, se trata de você.

certo, você viveu, e agora não vive. esteve aqui, deu algumas voltas ao redor do sol, conheceu pessoas, deixou um legado afetivo gigante. você fez muita coisa, mas agora você parou. e eu me sinto arrasada porque na minha cabeça, na cabeça de todos nós, não estava na hora de você parar. não estava na hora de você desaparecer sem que a gente te visse sorrir ou tocar uma música, ou falar qualquer coisa que só podia ser você mesmo pra falar. aqui tudo está doendo.

mas e agora? o que é que eu faço se nem ninguém, nem você, sabe que a hora de parar deveria ser muito depois? o que eu faço com a perplexidade e a impotência? pessoas como você vão sempre e profundamente falar ao meu coração: por favor, viva bem. viva todos os afetos que você sentir. traga suas verdades à existência. se entregue a essa vida rápida, e não tenha medo demais.

obrigada pelas memórias. obrigada por ser luz em minha vida. eu quero viver bem enquanto eu puder, porque nessa vida eu encontrei você.

p.s.: mas, por favor, aonde você estiver, me ajude. peça ao mundo que tenha paciência comigo. e que tenha a dignidade de entender que a dor também sabe ser só dor. sem ensinamentos.

 

 #rafa #tio #bart

  

na linha do horizonte tem um fundo cinza
pra lá dessa linha eu me lanço, e vou
não aceito quando dizem que o fim é cinza
se eu vejo cinza como um início em cor
quando tudo finda, dizem, virou cinza
equívoco, pois cinza cura, poesia eu sou
o traje cinza lembra fidalguia
quarta-feira cinza é dia de louvor
vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
vamos festejar o cinza com amor
gota de orvalho prateada é cinza
massa encefálica é cinza, amor
a purificação também se faz com cinza
fênix renasceu das cinzas com honor
só quero dengo quando o dia é cinza
leio poesia e cantarolo o sol
dedilho a viola e sonho colorido
e vejo no amante que o cinza desnudou
vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
vamos festejar o cinza com amor.
(Mateus Aleluia)

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