poderíamos ter ficado juntos, éramos confortáveis. mas ao mesmo tempo
faltava muita coisa, porque tinham nos arrancado muita coisa. estávamos assim,
aos pedaços, quebrados. era quase uma lei da física que a gente coubesse um no
outro, pelo tanto de espaço vazio.
você era um amigo, compreendia várias coisas. quando brigávamos eu até me entristecia, mas isso nem chegava a arranhar meu coração. a gente ria das mesmas coisas, reclamava das mesmas coisas, gostava dos mesmos filmes. ciúme existia. mas era um ciúme de medo de perder o acesso fácil e sem burocracia, de perder a pessoa-de-confiança irrestrita e o jeito mais simples de viver afetos. com você eu era desencanada, tosca e largada, egoísta, dramática, cética e cínica.
talvez o amor seja uma casa enorme, vinda de um projeto que nunca fica
pronto e acabado o suficiente. um dia enfim desistimos de esperar para considerar que tudo está em seu lugar, e apenas habitamos, aplicando reparos quando dá, fazendo
reformas e morando dentro, tudo ao mesmo tempo. amar parece um gesto de coragem, de confiar nos alicerces. no
entanto, agora eu sei, eu não amava você.
você sabe, a gente tentou demais. não desistimos assim tão fácil. a gente dava
voltas e lá estávamos tentando de novo. mas no fundo, no fundo, a gente também
nunca desistiu de outra coisa: viver algo verdadeiro e profundo. muitas vezes
nos impacientávamos com nós mesmos, porque esse sentimento verdadeiro e
profundo não estava ali.
das pessoas que eu não amei, você foi uma das que eu amei conhecer. obrigada por deixar minha vida mais fácil, por não ser uma mágoa. obrigada por ser aquela parte do passado que eu nunca tenho problemas em revisitar, por todas as boas lembranças. obrigada sobretudo porque eu aprendi um pouco com você a nunca me conformar com o não-amor.
desejo que nós encontremos uma casa boa para viver. que ela seja a paz e o abrigo, e o acolhimento e a verdade com que tantas vezes sonhávamos.
que seja uma casa de reformas e adaptações, mas que nem por um minuto precisemos sair dela.
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