sexta-feira, 18 de setembro de 2020

vontade de te aprender

não me conte tudo...mas me conte alguma coisa.

você até comenta que talvez chova hoje, que viu um acidente no trânsito, que os preços subiram.
você me diz todas essas coisas só porque não consegue me dizer coisa alguma.
e agora eu estou com saudade de quem você era antes, da época em que passava relatório e aguardava minha reação.

mas um dia eu comecei a não ter reação. interrompia suas palavras, te ouvia com metade de mim, e a outra metade era distraída.
te olhava e não te escutava. te deixava falar só para ter o direito de falar depois. te deixava reclamar só porque eu saberia reclamar mais e melhor.
recebia suas emoções mas achava todas elas meio exageradas, meio a troco de nada.
então eu te dizia: deixa esse assunto pra lá. e aí... você me deixou pra lá. foi mudando, aprendendo a não ter vontade de compartilhar. parou de acreditar em minhas respostas porque todas elas eram muito apressadas. burras.

aconteceu que um dia enfim eu notei. que você nunca mais tinha me falado da pessoa que você gostava, nem da saudade que sentia do ensino médio. nunca mais tinha me enviado uma música que te fez balançar. isso foi justo? foi justo.

eu não posso te voltar atrás. eu sei, reconheço que tá tudo certo, e que a vida nos empurrou para um distanciamento social, emocional, temporal. parece que nada mais bate, que nem temos mais nada a ver. tem horas que eu me pergunto: essa coisa das pessoas que "se gostam mas se afastam" é preguiça? é descaso? talvez aqui e ali seja isso, mas não acredito que seja assim pra todo mundo. de todo modo, eu não quero ter preguiça de você. não precisa me contar tudo, nunca será preciso. mas me dá uma pista, um sinal, uma ideia que me faça sentir um pedaço do seu mundo, do que tá acontecendo aí. quero a chance de prestar atenção às suas expressões faciais enquanto se empolga, ou o quanto você gesticula quando tem raiva. quero contar quantos xingamentos cabem em uma frase de indignação. me deixe lutar por uma cadeira nas suas narrativas, mesmo que você não tenha muita fé em minha escuta. 

eu sei que na família, entre amantes, entre amigos, sempre chega esse dia em que silenciamos. porque temos medo do que vamos dizer, temos medo de quem vai ouvir. a depender do dia, queremos cuidado, atenção, bom humor, reflexão, conselhos, um abraço, uma bronca, um apoio. é difícil acertar qual o dia certo para cada uma dessas coisas. mas eu sei que pelo jeito que você olha pro chão, esse é o dia em que você não merece uma lição de moral. pelo jeito como você chora, esse é o dia em que devíamos apenas ver um filme e comer pipoca. pelo jeito como você cruza os braços, esse é o dia para que eu entenda que o que você me diz é mentira, mas não foi mentira para você. pelo jeito como você me olha, talvez seja o dia em que eu te jogue uma praga.
eu quero decodificar todos esses jeitos e compreender suas angústias. quero te deixar em paz quando nada puder ser dito. eu quero para sempre essa vontade de te aprender. de saber de você.

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